Tive de facto uma infancia feliz.
Terceiro filho já tardio, sempre fui mimado pela família, e por isso com muito amor á volta.
Morando num bairro pacífico, crescer aqui foi fácil e calmo. As famílias eram famílias normais e o sentimento de vizinho e de bairrismo existia e todos se cumprimentavam.
No centro deste vortex de pessoas estava, a meu ver o café do bairro, do Sr. Zé, onde se faziam as compras e se punha a conversa em dia. Não haviam hipers e os supers eram quase do tamanho dos minimercados de hoje e em pouca quantidade. Comprava-se no Sr. Zé o leite, o pão e o resto dos bens essenciais.
O maior estabelecimento em Setúbal na altura era o Pão de Açucar (Agora Pingo Doce) na Av. Luísa Todi, mesmo ao lado do Mercado do Livramento, onde os meus pais iam uma vez por semana ás compras (Por regra á sexta). De resto, algumas mercearias em alguns bairros faziam o papel que o Sr. Zé fazia no nosso.
Olhando bem para trás, vem-me á memoria brincar na praceta, ainda só terra, e de usar um carro abandonado mesmo em frente á oficina como refúgio de dias chuvosos ou como portal para mundos alternativos imaginários.
Recordo-me de estar a brincar perto do Sr. Zé em 74 ou 75 e olhar para baixo em direcção á estação e ver pessoas a correr á frente da policia em direcção á Praça de Touros na Antonio José Batista. Não percebendo nada do assunto, achei que tinha concerteza a ver com política, com o governo. Talvez fosse.
Lembro-me também do meu primeiro crime (involuntário) quando nas obras do largo para o futuro Cidade de Magdeburgo ter atirado uma pedra ao ar e ter provocado o desaparecimento prematuro de um cachorro, que pertencia acho eu aos Taquelins.
Depois, na inauguração, em 76, com 6/7 anos fui encarregue de entregar em conjunto com a Claudia (filha da Keta) ramos de flores ao Presidente da Câmara de Magdeburgo. Foi com orgulho que fiz aquela caminhada entre o café do Sr. Zé e o Largo, rodeado de adultos. A minha irmã Anisabel fazia parte da comissão de moradores que organizou a recepçao ao dignitário, denominada Bairros Tebaida e Baptista.
São estas algumas das memórias mais antigas que tenho da minha vivencia no Bairro da Tebaida.
Concordo contigo. De facto, ao falar-se no Bairro da Tebaida temos de considerar dois eixos fundamentais agregadores, que atravessaram gerações: a Praceta e a Leitaria. E toda a vivência no Bairro foi feita à volta destas duas realidades. A iniciação era na rua, na terra batida do largo com muita futebolada. Com o advento das borbulhas na cara, estávamos preparados para polir as pedras de mármore da entrada da leitaria, onde as conversas mais maduras nos despertavam para outras realidades. Não era tudo uma maravilha, aquele micro-cosmos continha em si todas as diferenças que existiam e existem em termos societários, quer em termos materiais quer sob o ponto de vista educacional. Mas no nosso mundo de crianças e depois já na adolescência, as diferenças sociais esbatiam-se muito. Não acabavam, mas não tinham tanta importância. Na hora da diabrura e da asneira, em geral, estávamos todos qualificados e aptos.
ResponderEliminarLi e fiquei feliz, pois passei aqui a minha infância os 20 anos de menos preocupações da minha vida.
ResponderEliminarJoão dos Caracóis